Um bife no prato não justifica os meios...
Não quero tirar o apetite a ninguém, nem obrigar a uma opção vegetariana, mas quando vemos o sofrimento porque passam os animais de que nos alimentamos, dá vontade de optar por pastar. Exactamente por isso, pomos em funcionamento os nossos mecanismos de defesa, e evitamos pensar no assunto. Se o fazemos em relação à dor humana, à dos outros, evidentemente, porque não havíamos de agir da mesma forma quando tudo se passa com umas criaturas, que cada vez vemos mais longe, e mais raramente, e de que não sabemos nada? Felizmente os cientistas vieram em auxílio dos que sofrem. No reino humano, tem sido feito um esforço grande no sentido de prevenir a dor (muito mais eficaz do que a tratar à posteriori), e de a medicar sem a ideia peregrina de que o sofrimento engrandece a alma. No reino animal, por pressão de grupos de alerta que defendem, com toda a razão, que nos definimos a nós mesmos, pela forma como tratamos os animais. Também aqui os fins, um bife no prato ou o teste de uma nova substância num ratinho, não podem justificar os meios. Na passada segunda-feira, na Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, foi defendida uma tese de doutoramento que tinha por objectivo avaliar a dor de vitelos da raça Holstein (as malhadas, que todos conhecemos) no momento em que são sujeitos a dois procedimentos habituais, o descorna e a castração. Pretendia, ainda, descobrir de que forma é possível minimizar o sofrimento que implicam. Através da medição de indicadores de dor, nomeadamente o cortisol, e da observação do comportamento dos animais após a intervenção, foi possível demonstrar que lhes é infligida, de facto, uma dor forte e prolongada, só aliviável por anestésicos e anti-inflamatórios. Permitiu perceber que os vitelos que tiveram a sorte de ser correctamente medicados recuperavam muito mais depressa, o que representava uma mais-valia para eles, é claro, mas também para os produtores. Porque, como argumentava o trabalho, são precisas soluções viáveis e vantajosas, sob risco de se fazerem propostas utópicas, que nenhum agricultor acata. Mas ao ouvir a defesa da tese fiquei com a certeza de que o futuro vai valer a pena, quando cada vez mais pessoas queimam as pestanas para o tornar melhor para quem tenha duas ou quatro patas. Um bife no prato não justifica os meios...

1 comments:
Mto bom!
bj
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